em lusofonia

Luís de Camões
Eduardo Agualusa
Mia Couto
Jorge Amado
Vinícius de Moraes
Camilo Castelo Branco
Pepetela
Paulina Chiziane
Ungulani Ba Ka Khosa
Henrique de Senna Fernandes
Carlos Drummond de Andrade
Eça de Queirós
Sophia de Mello Breyner
Cecília Meireles
Fernando Pessoa I
Fernando Pessoa II
Agostinho Neto

"Compro livros em busca de encontrar a minha alma perdida, os desgostos ensinam-me a lê-los", Maisa Champalimaud

 

"Toda a literatura consiste num esforço para tornar a vida real. Como todos sabem, ainda quando agem sem saber, a vida é absolutamente irreal, na sua realidade directa; os campos, as cidades, as ideias, sao coisas absolutamente fictícias, filhas da nossa complexa sensação de nós mesmos. Sâo intransmissíveis todas as impressões salvo se as tornarmos literárias." 

Fernando Pessoa

Recordo-me de ser criança bastante para ainda não saber ler, de ser criança bastante para ficar em casa enquanto os meus irmãos iam à escola. Recordo-me do silêncio que sentia quando entrava às escondidas no seu quarto e me entretinha a abrir os seus livros. Não os sabia ler, mas não era isso que me prendia a eles. O que me puxava, prendia sim, era o facto de estar a passar as mãos pelos locais onde os meus irmãos, os meus primeiros melhores amigos, tinham passado, estado, sonhado: Sentia-me um pouco como se estivesse com eles, acompanhada, de mão dada a viajar pelos mesmos mundos, a dar os mesmos passos...

Há uns anos atrás, confrontada com a ausência de alguém muito especial, enchi minha casa com os seus livros. Não me preocupou particularmente quem eram os autores ou quais as histórias, mas sim a presença de alguém que fora para mim tão importante, espalhada por todas aquelas páginas. A certeza de que em cada um desses livros, em cada página dessa quantidade imensa de livros, estaria um pouco de si, os seus passos tornando a minha sala cheia da sua presença. Voltei a recordar o silêncio que sentia no quarto dos meus irmãos e que tanta companhia me fazia.

Os livros, sejam eles novos acabados de sair da loja ou relíquias antigas passadas de mão em mão, têm o potencial de transformar uma vida. A capacidade de nos agarrar, acolher, aconchegar, fazer-nos ver que não estamos sós no universo, que as nossas dores, não são mais que dores, meras; que as nossas dúvidas, angústias, paixões e alegrias não são só nossas, mas de todos! Que passados anos, séculos de existência, todos passámos por semelhantes momentos, todos sentimos semelhantes sentimentos. Os livros relativizam a vida, fazem-nos companhia, falam connosco, enfim; imortalizam a experiência humana.
A vida ensina-nos a lê-los, mas são eles também que nos ensinam a vida.
Talvez por isso compre mais livros do que aqueles que consiga ler, por querer encontrar neles respostas para a alma.

Ao ser convidada para exaltar os intérpretes máximos da língua portuguesa, retratando escritores lusófonos pelo Mundo fora, não pude deixar de pensar que fazia todo o sentido retratá-los sobre o suporte que no fundo é seu: Os Livros.

 

 

 Maisa Champalimaud 2014

“Faz dos livros teus companheiros. Deixa que as tuas estantes e prateleiras sejam os teus recreios e jardins."

Judah ibn-Tibbon

"As palavras abrem-nos a alma." Jasão Casimiro observou atentamente a inscrição a metal estampado. Começava já a acusar o entardecer e a luz 

enrubescida pintava a paisagem em tons de bronze, salpicos de ferrugem soalheira sobre o verde dos campos. Atrás dele Eugénia das Flores, de seu nome Maria Eugénia e portanto assim chamada quando a informal conversa o permitia, aquecia o corpo ao sol mergulhada num leve sono. Dir-se-ia que passava pelas brasas. Jasão continuava não obstante absorto pela sua descoberta, preso ao magnetismo inescapável daquele invulgar engenho. Não sabia ler, mas aqueles estranhos caracteres, símbolos arcanos e retorcidos que nós sabemos serem letras mas há muito esquecidos nesse futuro distante e longínquo, faziam paradoxalmente sentido na sua cabeça. Guinchou e gesticulou na direcção de Maria Eugénia, que uma vez desperta lhe retribuiu a cacofonia. Ainda ensonada cambaleou na sua direcção, estremunhada mas também ela curiosa. Uivou. Pouco a pouco, criaturas seres humanos ergueram-se como flores, plantas e árvores de um jardim, naqueles campos verdes tingidos de metal férreo pelo Hélios poente. Convergiram sobre Jasão, Casimiro de seu nome, e portanto assim chamado quando a informal conversa o permitia, ainda que esta porém não acontecesse. Gesticularam, uivaram, gritaram, guincharam, riram, baliram, ladraram e cantaram. Mas não falaram. Não. Isso não sabiam fazer, coisa há muito esquecida nesse futuro distante e longínquo. Então ele retirou da caixa, a da inscrição a metal estampado, o objecto que a todos enfeitiçara: Um lusofóne. Deteve-se por um segundo, hesitante. Um temor respeitoso percorreu-o. Então pegou no aparelho, levou-o à boca e falou. Não guinchou nem gesticulou, não uivou ou ladrou, não gritou nem cantarolou. Falou. Falou palavras de falar, palavras do nosso Português. Palavras que todos compreenderam e repetiram, palavras que aprenderam, palavras que os uniram. Não só ali, naquele campo solarengo vespertino, mas em todo lado, em todos os continentes para onde navegaram, para onde espalharam a Palavra. Pois é esse o seu poder: Como dizia a inscrição, "As palavras abrem-nos a alma." Unem-nos. 

Hugo Viera da Silva 2014

veja o meu

FACEBOOK

pegue no

TELEFONE

+351 91 843 06 04